O Transtorno do Espectro Autista (TEA) afeta milhões de pessoas em todo o Brasil, trazendo desafios para a inclusão escolar e o desenvolvimento social. Famílias de diferentes regiões do país relatam dificuldades para garantir o suporte necessário aos filhos e ressaltam a importância do diagnóstico precoce e do acompanhamento adequado.
A história de muitas dessas famílias começa com diagnósticos errados ou tardios. Em diversos casos, crianças com sinais precoces de autismo são inicialmente tratadas como portadoras de outras condições, atrasando o início das intervenções terapêuticas. Especialistas destacam que sinais como dificuldades na comunicação, pouco contato visual e comportamentos repetitivos podem ser percebidos já aos dois anos de idade, tornando fundamental a orientação de profissionais da saúde e da educação.
A psicopedagoga e psicomotricista Luciana Brites, diretora-executiva do Instituto NeuroSaber, explica que o TEA se manifesta de diferentes formas, o que exige uma abordagem personalizada para cada criança. “O transtorno é um espectro, ou seja, há diferentes níveis de suporte necessários. Algumas crianças falam, mas têm dificuldades de interação social, enquanto outras são não verbais e necessitam de métodos alternativos de comunicação”, explica.
A classificação utilizada atualmente divide o TEA em três níveis de suporte:
- Nível 1: Crianças que precisam de algum suporte, mas conseguem desenvolver maior autonomia;
- Nível 2: Demandam suporte mais intenso e apresentam dificuldades significativas na comunicação e interação social;
- Nível 3: Necessitam de suporte substancial, muitas vezes com dificuldades graves de aprendizado e autonomia.
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Desafios na educação
O acesso à educação inclusiva é um dos principais desafios enfrentados pelas famílias. Muitas escolas não possuem estrutura adequada ou profissionais capacitados para atender alunos autistas. Mesmo em instituições que oferecem salas multifuncionais e professores mediadores, a realidade varia conforme a localização e os recursos disponíveis.
A psicopedagoga destaca que a formação de professores é essencial para garantir a inclusão. “A realidade do professor hoje é desafiadora. Muitas vezes, ele já enfrenta dificuldades com alunos neurotípicos e, sem capacitação adequada, não consegue atender plenamente os alunos atípicos”, ressalta.
Atividades que estimulam a consciência fonológica, como jogos de rimas, repetição de sílabas e identificação de fonemas, podem auxiliar na alfabetização de crianças autistas. No entanto, a adaptação curricular deve ser feita considerando as necessidades individuais de cada aluno.
O papel das famílias e da saúde
A inclusão escolar de crianças autistas depende de um trabalho conjunto entre famílias, escolas e profissionais da saúde. Em muitas situações, os pais precisam deixar o trabalho para se dedicar integralmente às terapias e às necessidades dos filhos.
Muitos casos de autismo também envolvem histórias de descobertas tardias. Famílias relatam situações em que adultos só receberam diagnóstico após os filhos, revelando padrões que antes eram ignorados ou confundidos com outras condições.
Política Nacional de Educação Inclusiva
Desde 2008, o Brasil conta com a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, que busca garantir a inserção de estudantes com deficiência em classes regulares. Segundo o Ministério da Educação, 36% das escolas brasileiras possuem salas de recursos multifuncionais para atendimento especializado.
Dados do Censo Escolar do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) indicam que, em 2022, o Brasil tinha:
- 1.372.000 estudantes do público-alvo da educação especial matriculados em classes comuns;
- 89,9% das matrículas do público-alvo da educação especial em classes comuns;
- 129 mil matrículas desde a educação infantil.
Especialistas defendem que a inclusão plena só será alcançada com investimentos contínuos na formação docente, estruturação das escolas e políticas públicas que garantam a participação de estudantes autistas no ambiente escolar de maneira digna e eficiente.